Sustentar minhas concepções é doloroso, muitas vezes. Estive sempre ao lado dos mais fracos, dos indefesos, dos perdidos de alma. Em cada conversa, cada chopp, cada cigarro, dava-lhes sempre uma palavra de consolo e me colocava de exemplo, muitas vezes. Minha vida me fez assim. As injustiças pelas quais passei, os impropérios que ouvi, as acusações infundadas, tudo isso me deu raiva e ímpeto. Em nenhuma fase da vida, fui nitidamente um vencedor. De certa forma, entoei esta máxima ao longo dos anos e sinto que ela soa hoje como uma verdade. Esta verdade tem me consumido em cada projeto que toco, em cada idéia que tenho.
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Mesmo assim, não aceito como alternativa mudar de lado. Passar a caçoar dos mais fracos, aproveitar-me de minhas qualidades dadas por Deus e por sorte para o escárnio sombrio dos desafortunados. Eu queria que todos fôssemos iguais perante à vida, mas só somos iguais perante a Deus. E Ele, Deus, nunca está de corpo e alma conosco, nos mostrando que é soberano. Esta invisibilidade torna tudo mais difícil.
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Não consigo enxergar justiça nesta balança que pesa sempre para o lado dos falsos, dos egoístas, dos materialistas. Eles estão sempre a sorrir, pois têm tudo nas mãos: oportunidades, melhores condições, sorrisos e palavras gentis, enquanto que os fracos, feios, gordos, burros, pobres, só têm para segurar a fé que usam para continuarem vivos.
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Por isso, considero minha jornada um tanto difícil. Preciso provar a toda essa gente que é possível mudar. Com a música e a literatura, conquistei multidões. Com auto-estima, carreguei muitas outras multidões também. Em muitos momentos me sinto satisfeito por ter dado a volta por cima. Mas em outros, me rasga a falta de credibilidade e o sentimento de impotência. Não há o que eu faça, sempre serei o garotinho gordo e feio sendo sacaneado pelos populares. Passarei minha vida a olhar as garotas da minha sala ficando com os belos vagabundos e humilhando a nós, feios e trabalhadores.
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Minha revolta também é ver que fazemos tudo o que existe de bom neste mundo, e quem leva o crédito são aqueles que são bonitinhos e articulados, mas nada fizeram. Minha revolta também é ver que só somos amados quando alguma mulher desiste dos cafajestes. Em outras palavras, só pegamos uma vaga quando um deles larga, como se não prestasse mais. Minha revolta é ver que o que produzimos é novo, intacto, gracioso e o que recebemos em troca é velho, mexido e feio.
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Ainda por cima, não temos sequer o direito de dar esse grito ao mundo. Como todos os feios-fracos, somos honestos, bons e religiosos. Acreditamos em Deus e devemos sempre agradecer a Ele por, pelo menos, termos o que comer e sermos amados por alguém que nunca nos amaria se não tivesse enjoado dos cafajestes comedores.
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Entretanto, de acordo com uma das premissas de Nosso Senhor, é preciso se conformar. Enxergar as coisas simples da vida. E nisso, persisto, para, quem sabe um dia, esquecer da vida que salta aos meus olhos todos os dias. Sou triste por isso e, por isso mesmo, morro de medo de ir para o inferno.
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Ajude-me Deus. Por favor.
Um comentário:
Show...esse texto!As coisas simples das vida são as melhores e mais prazerosas! Visite nosso blog de comunicação quando puder! Abraço
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